Das manchetes ao caixa
A adoção real das stablecoins não se mede pelo ruído que produzem, mas pelas operações comuns que começam a depender delas.

Há um momento na vida de toda tecnologia em que ela deixa de ser interessante. Não porque fracassou, mas porque venceu. A eletricidade deixou de ser notícia quando virou uma tomada. A internet deixou de ser um acontecimento quando passou a ser o pano de fundo invisível sobre o qual quase todo o resto acontece.
Uma parte do universo cripto — sobretudo as stablecoins e a infraestrutura de liquidação que as sustenta — começa a se aproximar desse limiar. O processo é mais silencioso do que sugerem as manchetes e bem menos espetacular do que prometeram seus defensores.
Por mais de uma década, o mercado se contou por meio do preço: máximas históricas, colapsos, fortunas repentinas e falências estrondosas. Essa história capturava atenção, mas media a coisa errada. Para quem administra capital, não importa apenas quanto um ativo sobe em um trimestre. Importa também quantas operações cotidianas começam a se apoiar em uma nova infraestrutura e por quê.
O crescimento sério raramente é anunciado. Ele se acumula.
O número que exige uma explicação
O relatório State of Crypto 2025, da Andreessen Horowitz, estimou que as stablecoins movimentaram US$ 46 trilhões nos doze meses anteriores. Depois de filtrar bots e outras atividades que inflam artificialmente o registro, calculou um volume ajustado de US$ 9 trilhões, 87% acima do ano anterior. Somente em setembro de 2025, o volume ajustado se aproximou de US$ 1,25 trilhão.
A escala é extraordinária, mas exige uma precisão fundamental: movimentar dinheiro em uma blockchain não equivale necessariamente a pagar por um produto ou serviço. Uma transferência pode corresponder a uma compra, mas também a trading, garantias, arbitragem, tesouraria, liquidações internas ou rotas entre intermediários. Comparar todo esse fluxo com Visa ou PayPal ajuda a visualizar o tamanho, mas não compara atividades idênticas.
Do movimento total ao pagamento observável
Boston Consulting Group e Allium Labs aplicaram uma metodologia mais restritiva. De mais de US$ 62 trilhões em transferências anuais observadas, identificaram aproximadamente US$ 4,2 trilhões como atividade econômica real. Dentro desse conjunto, estimaram entre US$ 350 bilhões e US$ 550 bilhões em pagamentos bilaterais observáveis por bens e serviços durante 2025.
As duas leituras não se anulam; medem camadas diferentes. A primeira revela a escala alcançada pelos trilhos. A segunda pergunta quanto desse tráfego já pertence à economia cotidiana. A conclusão sóbria está entre ambas: as stablecoins ainda não substituem o sistema tradicional de pagamentos, mas já deixaram de ser um experimento marginal.
Da tela da exchange à operação
Durante anos, “cripto” significou uma tela de exchange: um gráfico, uma posição e uma aposta. A transição importante ocorre quando parte da atividade deixa essa tela e aparece em lugares menos visíveis: liquidações internacionais, pagamentos a fornecedores, remessas, tesourarias de empresas digitais e fluxos entre plataformas reguladas.
O caso mais claro são os pagamentos transfronteiriços. Onde o sistema tradicional impõe horários limitados, vários intermediários, custos cambiais ou dias de espera, uma stablecoin pode permitir liquidação contínua e disponibilidade mais rápida. A empresa não precisa adotar uma ideologia. Precisa resolver um problema.
Isso não elimina os riscos. O emissor pode falhar, as reservas podem perder qualidade, uma carteira pode ser comprometida e uma transferência incorreta pode ser difícil ou impossível de reverter. Há ainda obrigações de custódia, conformidade, contabilidade e controle de contraparte. A conveniência operacional não torna a ferramenta livre de risco; apenas explica por que alguém decide assumi-lo.
A adoção real quase nunca é um ato de fé. É uma decisão de custo, tempo e controle.
A tokenização encontra produtos concretos
A tokenização também começa a abandonar a linguagem das demonstrações. Títulos do Tesouro, fundos monetários, crédito privado e outros instrumentos já são representados e liquidados em redes públicas ou permissionadas. A RWA.xyz registrava mais de US$ 10 bilhões apenas em produtos tokenizados ligados ao Tesouro dos Estados Unidos em fevereiro de 2026.
O número continua diminuto diante dos mercados tradicionais. É um começo, não uma conquista. Mas o perfil dos participantes mudou: gestores de ativos, bancos, fintechs e provedores de infraestrutura sujeitos a exigências institucionais agora atuam ao lado de protocolos e emissões experimentais.
Tokenizar um ativo não melhora sua qualidade. Um crédito ruim continua ruim mesmo que seja liquidado em segundos. O valor aparece em outro lugar: distribuição, disponibilidade, fracionamento, programabilidade e conciliação. A tecnologia muda a embalagem e o processo; não substitui a análise do ativo subjacente.
A regulação tornou a conversa defensável
Uma empresa tradicional dificilmente adota infraestrutura financeira sem um marco que possa explicar ao conselho, documentar para o auditor e defender perante o banco.
Os Estados Unidos promulgaram o GENIUS Act em 18 de julho de 2025. A lei estabeleceu um regime federal e estadual para emissores de stablecoins de pagamento, com exigências de autorização, reservas, divulgação, gestão de riscos e prevenção à lavagem de dinheiro. A implementação não foi imediata: a vigência depende dos prazos legais e da regulamentação das autoridades federais.
Na União Europeia, o MiCA estabeleceu requisitos uniformes para emissores de criptoativos e prestadores de serviços. As disposições relativas a determinados tokens estáveis começaram a ser aplicadas em junho de 2024, seguidas pelo regime geral em dezembro, com mecanismos transitórios para empresas anteriormente autorizadas sob normas nacionais.
A clareza regulatória não torna uma tecnologia rentável nem garante a solvência de seus participantes. Ela faz algo mais modesto e importante: define responsabilidades, cria um vocabulário comum e permite avaliar riscos dentro de uma estrutura conhecida.
A adoção empresarial não se destrava com entusiasmo. Destrava-se com governança.
A leitura patrimonial
Para quem administra patrimônio, essa mudança exige separar conceitos que costumam aparecer misturados.
Ativo especulativo
Volatilidade, liquidez, expectativas e possibilidade de perdas severas.
Infraestrutura
Pagamento e liquidação com riscos operacionais, regulatórios e de contraparte.
Tokenização
Nova representação; o risco continua no ativo subjacente.
Um patrimônio pode não ter exposição especulativa a criptomoedas e ainda assim encontrar essa infraestrutura indiretamente: um fornecedor que solicita stablecoins, uma plataforma que liquida on-chain ou um fundo que incorpora instrumentos tokenizados. Ignorar todo o fenômeno por desconfiança em relação ao preço seria confundir o ativo com o encanamento.
A resposta prudente não é entusiasmo nem negação. É formular perguntas melhores:
- Quem emite o instrumento e qual direito jurídico o titular recebe?
- Quais ativos sustentam a promessa e quem os verifica?
- Onde estão as chaves e quem responde por uma perda?
- Qual jurisdição rege a operação?
- Existe liquidez real fora de condições normais?
- A nova infraestrutura reduz um custo concreto ou apenas adiciona complexidade?
Quando essas perguntas não têm respostas claras, a inovação ainda não está pronta para custodiar capital sério.
O sinal da maturidade
Uma tecnologia amadurece quando deixa de precisar de defensores apaixonados e começa a ter usuários indiferentes. Ninguém milita pelo e-mail nem transforma uma transferência bancária em identidade pessoal. Essas ferramentas são usadas porque resolvem uma tarefa.
As stablecoins ainda têm defensores e detratores demais para serem invisíveis. Além disso, os pagamentos por bens e serviços continuam sendo uma parcela limitada do volume total. Mesmo assim, a direção é difícil de ignorar: o centro de gravidade começa a se deslocar do ativo para a operação, do gráfico para a tesouraria e da manchete para o caixa.
O crescimento que vale observar é aquele que se torna rotina. E a rotina, por definição, não é notícia.
— R. B.
Este conteúdo oferece análise geral e não constitui aconselhamento financeiro, jurídico, tributário ou de investimento. Os números usam metodologias diferentes e não devem ser tratados como métricas diretamente equivalentes.